terça-feira, 24 de dezembro de 2013
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
sábado, 30 de novembro de 2013
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
sábado, 16 de novembro de 2013
sábado, 5 de outubro de 2013
sábado, 28 de setembro de 2013
domingo, 15 de setembro de 2013
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
quinta-feira, 25 de julho de 2013
QUEM MAIS MATOU ÍNDIOS FORAM OS ÍNDIOS
Trecho Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil
Quem mais matou índios foram os índios
Uma das concepções mais erradas sobre a colonização do Brasil é acreditar que os portugueses fizeram tudo sozinhos. Na verdade, eles precisavam de índios amigos para arranjar comida, entrar no mato à procura de ouro, defender-se de tribos hostis e até mesmo para estabelecer acampamentos na costa.
Descer do navio era o primeiro problema. Os comandantes das naus europeias costumavam escolher bem o lugar onde desembarcar, para não correr o risco de serem atacados por índios nervosos e nuvens de flechas venenosas. Tanto temor se baseava na experiência. Depois de meses de viagem nas caravelas, os navegadores ficavam mal nutridos, doentes, fracos, famintos e vulneráveis. Chegavam a lugares desconhecidos e frequentemente tinham azar: levavam uma surra e precisavam sair às pressas das terras que achavam ter conquistado. Acontecia até de terem que mendigar para arranjar comida, como na primeira viagem de Vasco da Gama 3 à Índia, em 1498.
O tratamento foi diferente no Brasil, mas nem tanto. Os portugueses não eram seres onipotentes que faziam o que quisessem nas praias brasileiras. Imagine só. Você viaja para o lugar mais desconhecido do mundo, que só algumas dúzias de pessoas do seu país visitaram. Há sobre o lugar relatos tenebrosos de selvagens guerreiros que falam uma língua estranha, andam nus e devoram seus inimigos – ao chegar, você percebe que isso é verdade. Seu grupo está em vinte ou trinta pessoas; eles, em milhares. Mesmo com espadas e arcabuzes, sua munição é limitada, o carregamento é demorado e não contém os milhares de flechas que eles possuem. Numa condição dessas, é provável que você sentisse medo ou pelo menos que preferisse evitar conflitos. Faria algumas concessões para que aquela multidão de pessoas estranhas não se irritasse.
Para deixar os índios felizes, não bastava aos portugueses entregar-lhes espelhos, ferramentas ou roupas. Eles de fato ficaram impressionados com essas coisas (veja mais adiante) , mas foi um pouco mais difícil conquistar o apoio indígena. Por mais revolucionários que fossem as roupas e os objetos de ferro europeus, os índios não viam sentido em acumular bens: logo se cansavam de facas, anzóis e machados. Para permanecerem instalados, os recém-chegados tiveram que soprar a brasa dos caciques estabelecendo alianças militares com eles. Dando e recebendo presentes, os índios acreditavam selar acordos de paz e de apoio quando houvesse alguma guerra. E o que sabiam fazer muito bem era se meter em guerras.
O massacre começou muito antes de os portugueses chegarem. As hipóteses arqueológicas mais consolidadas sugerem que os índios da família linguística tupi-guarani, originários da Amazônia, se expandiam lentamente pelo Brasil. Depois de um crescimento populacional na floresta amazônica, teriam enfrentado alguma adversidade ambiental, como uma grande seca, que os empurrou para o Sul. À medida que se expandiram, afugentaram tribos então donas da casa. Por volta da virada do primeiro milênio, enquanto as legiões romanas avançavam pelas planícies da Gália, os tupis-guaranis conquistavam territórios ao sul da Amazônia, exterminando ou expulsando inimigos. 4 Índios caingangues, cariris, caiapós e outros da família linguística jê tiveram que abandonar terras do litoral e migrar para planaltos acima da serra do Mar.
Em 1500, quando os portugueses apareceram na praia, a nação tupi se espalhava de São Paulo ao Nordeste e à Amazônia, dividida em diversas tribos, como os tupiniquins e os tupinambás, que disputavam espaço travando guerras constantes entre si e com índios de outras famílias linguísticas. Não se sabe exatamente quantas pessoas viviam no atual território brasileiro – as estimativas variam muito, de 1 milhão a 3,5 milhões de pessoas, divididas em mais de duzentas culturas. Ainda demoraria alguns séculos para essas tribos se reconhecerem na identidade única de índios, um conceito criado pelos europeus. Naquela época, um tupinambá achava um botocudo tão estrangeiro quanto um português. Guerreava contra um tupiniquim com o mesmo gosto com que devorava um jesuíta. Entre todos esses povos, a guerra não era só comum – também fazia parte do calendário das tribos, como um ritual que uma hora ou outra tinha de acontecer. Sobretudo os índios tupis eram obcecados pela guerra. Os homens só ganhavam permissão para casar ou ter mais esposas quando capturassem um inimigo dos grandes. Outros grupos acreditavam assumir os poderes e a perspectiva do morto, passando a controlar seu espírito, como uma espécie de bicho de estimação. Entre canibais, como os tupinambás , prisioneiros eram devorados numa festa que reunia toda a tribo e convidados da vizinhança.
Com a vinda dos europeus, que também gostavam de uma guerra, esse potencial bélico se multiplicou. Os índios travaram entre si guerras duríssimas na disputa pela aliança com os recém-chegados. Passaram a capturar muito mais inimigos para trocar por mercadorias. Se antes valia mais a qualidade, a posição social do inimigo capturado, a partir da conquista a quantidade de mortes e prisões ganhou importância. Por todo o século 16, quando uma caravela se aproximava da costa, índios de todas as partes vinham correndo com prisioneiros – alguns até do interior, a dezenas de quilômetros. Os portugueses, interessados em escravos, compravam os presos com o pretexto de que, se não fizessem isso, eles seriam mortos ou devorados pelos índios. Em 1605, o padre Jerônimo Rodrigues, quando viajou ao litoral de Santa Catarina, ficou estarrecido com o interesse dos índios em trocar gente, até da própria família, por roupas e ferramentas:
Tanto que chegam os correios ao sertão, de haver navio na barra, logo mandam recado pelas aldeias para virem ao resgate. E para isso trazem a mais desobrigada gente que podem, scilicet , moços e moças órfãs, algumas sobrinhas, e parentes, que não querem estar com eles ou que os não querem servir, não lhe tendo essa obrigação; a outros trazem enganados, dizendo que lhe farão e acontecerão e que levarão muitas coisas [...]. Outro moço vindo aqui onde estávamos, vestido em uma camisa, perguntando-lhe quem lha dera, respondeu que vindo pelo navio dera por ela e por alguma ferramenta um seu irmão; outros venderam as próprias madrastas, que os criaram, e mais estando os pais vivos.
Leandro Narloch
quarta-feira, 24 de julho de 2013
ÍNDIOS, OS ESTRANGEIROS NATIVOS
Os nativos já estavam na América quando os conquistadores exterminaram tribos inteiras. Espanha, Inglaterra, França, Portugal. Agradeço o esclarecimento de Eliane Brum e o que podemos fazer pelo meu povo chamado índio.
Índios, os estrangeiros nativos
A dificuldade de uma parcela das elites,
da população e do governo de reconhecer os indígenas como parte do Brasil criou
uma espécie de xenofobia invertida, invocada nos momentos de acirramento dos
conflitos
ELIANE BRUM
02/07/2013 10h00 - Atualizado em 02/07/2013 11h27
A volta dos indígenas à pauta do país tem gerado discursos bastante
reveladores sobre a impossibilidade de escutá-los como parte do Brasil que têm
algo a dizer não só sobre o seu lugar, mas também sobre si. Os indígenas
parecem ser, para uma parcela das elites, da população e do governo, algo que
poderíamos chamar de “estrangeiros nativos”. É um curioso caso de xenofobia, no
qual aqueles que aqui estavam são vistos como os de fora. Como “os outros”, a
quem se dedica enorme desconfiança. No processo histórico de estrangeirização
da população originária, os indígenas foram escravizados, catequizados,
expulsos, em alguns casos dizimados. Por ainda assim permanecerem, são
considerados entraves a um suposto desenvolvimento. A muito custo foram
reconhecidos como detentores de direitos, e nisso a Constituição de 1988 foi um
marco, mas ainda hoje parecem ser aqueles com quem a sociedade não índia tem
uma dívida que lhe custa reconhecer e que, para alguns setores – e não apenas
os ruralistas –, seria melhor dar calote. Para que os de dentro continuem fora
é preciso mantê-los fora no discurso. É isso que também temos testemunhado nas
últimas semanas.
Entre os exemplos mais explícitos está a tese de que não falam por si. Aos estrangeiros é negada a posse de uma voz, já que não podem ser reconhecidos como parte. Sempre que os indígenas saem das fronteiras, tanto as físicas quanto as simbólicas, impostas para que continuem fora, ainda que dentro, é reeditada a versão de que são “massas de manobra” das ONGs. Vale a pena olhar com mais atenção para essa versão narrativa, que está sempre presente, mas que em momentos de acirramento dos conflitos ganha força.
Desta vez, a entrada dos indígenas no noticiário se deu por dois episódios: a morte do terena Oziel Gabriel, durante uma operação da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, e a paralisação das obras de Belo Monte, no Pará, pela ocupação do canteiro pelos mundurucus. O terena Oziel Gabriel, 35 anos, morreu com um tiro na barriga durante o cumprimento de uma ordem de reintegração de posse em favor do fazendeiro e ex-deputado pelo PSDB Ricardo Bacha, sobre uma terra reconhecida como sendo território indígena desde 1993. Pela lógica do discurso de que seriam manipulados pelas ONGs, Oziel e seu grupo, se pensassem e agissem segundo suas próprias convicções, não estariam reivindicando o direito assegurado constitucionalmente de viver na sua área original. Tampouco estariam ali porque a alternativa à luta pela terra seria virar mão de obra barata ou semiescrava nas fazendas da região, ou virar favelados nas periferias das cidades. Não. Os indígenas só seriam genuinamente indígenas se aceitassem pacífica e silenciosamente o gradual desaparecimento de seu povo, sem perturbar o país com seus insistentes pedidos para que a Constituição seja cumprida. Aí já há uma pista para o que alguns setores da sociedade brasileira entendem como identidade “verdadeira”: ser índio seria, quando não desaparecer, ao menos silenciar.
No caso dos mundurucus, questionou-se exaustivamente a legitimidade de sua presença no canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, por estarem “a 800 quilômetros de sua terra”. De novo, os indígenas estariam extrapolando fronteiras não escritas. Os mundurucus estavam ali porque suas terras poderão ser afetadas por outras 14 hidrelétricas, desta vez na Bacia do Tapajós, e pelo menos uma delas, São Luiz do Tapajós, deverá estar no leilão de energia previsto para o início de 2014. Se não conseguirem se fazer ouvir agora, eles sabem que acontecerá com eles o mesmo que acabou de acontecer com os povos do Xingu. Serão vítimas de um outro discurso muito em voga, o da obra consumada. A trajetória de Belo Monte mostrou que a estratégia é tocar a obra, mesmo sem o cumprimento das condicionantes socioambientais, mesmo sem a devida escuta dos indígenas, mesmo com os conhecidos atropelamentos do processo dentro e fora do governo, até que a usina esteja tão adiantada, já tenha consumido tanto dinheiro, que parar seja quase impossível.
Adiantaria os mundurucus gritarem sozinhos lá no Tapajós, para serem contemplados no seu direito constitucional, respaldado também por convenção da Organização Internacional do Trabalho, de serem ouvidos sobre uma obra que vai afetá-los? Não. Portanto, eles foram até Belo Monte se fazer ouvir. Mas, como são indígenas, alguns acreditam que não seriam capazes de tal estratégia política. É preciso resgatar, mais uma vez, o discurso da manipulação – ou da infiltração. Já que, para serem indígenas legítimos, os mundurucus teriam de apenas aceitar toda e qualquer obra – e, se fossem bons selvagens, talvez até agradecer aos chefes brancos por isso.
Quando os indígenas levantam a voz, a voz não seria sua. Seria de um outro, a quem emprestam o corpo. Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que o discurso dos indígenas como massa de manobra seja inocente. Ele serve a muitos interesses, inclusive o de tirar do foco os reais interesses sobre as terras indígenas de quem o difunde. Mas esse discurso não teria ressonância se não tivesse a adesão de uma parte significativa da população brasileira. E esta adesão se dá, me parece, por essa espécie de xenofobia invertida. Estes “estrangeiros nativos” ameaçariam um suposto progresso, já que seu conhecimento não é decodificado como um valor, mas como um “atraso”, sua enorme diversidade cultural e de visões de mundo não são interpretadas como riqueza e possibilidades, mas como inutilidades. Neste sentido, há uma frase bastante reveladora de como esse olhar – ou não olhar – contamina amplas parcelas da sociedade, inclusive no governo. Ao falar em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em dezembro passado, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que sua pasta atendia “da toga à tanga”. Entre os dois extremos, podemos ver em qual deles o ministro situa o ápice da civilização e também o seu oposto.
Há ainda uma dupla invocação do estrangeiro nesse discurso, já que a única coisa pior do que ser “massa de manobra” de ONGs nacionais seria ser das estrangeiras. Evocar a ameaça externa parece sempre funcionar, como naqueles SPAMs, que volta e meia reaparecem, de que “os gringos estão invadindo a Amazônia” – esta também, tão nossa que podemos destruí-la, tarefa a que temos nos dedicado com afinco. Ao denunciar uma suposta apropriação do corpo simbólico dos indígenas por outros, o que se revela, de fato, é a frustração porque esse corpo não se deixa expropriar e manipular pelas elites como antes. Porque apesar de todas as violências, há uma voz que ainda escapa – e que demanda o reconhecimento de seu corpo-terra, de seu pertencimento. Aquele que é visto como o de fora se torna um incômodo quando diz que é parte.
Vale a pena prestar atenção em quem amplifica o discurso dos indígenas como “massa de manobra”, para verificar que fazem exatamente o que acusam outros de fazer: afirmam o que os indígenas, todos eles, precisam e querem. Parece haver um consenso, inclusive, de que o verdadeiro desejo dos indígenas seria se tornar um trabalhador assalariado e urbano ou, pelo menos, o beneficiário de algum programa de transferência de renda do governo.
Nesta posição, eles não atrapalhariam ninguém – e menos ainda os produtores rurais. Este é o momento chave para a entrada de outro discurso recorrente: o de que os indígenas querem terra “demais”. Basta fazer as contas, como fez o jornalista Fabiano Maisonnave, na Folha de S. Paulo: com uma população de 28 mil indígenas em Mato Grosso do Sul, os terenas têm sete reservas, somando cerca de 20 mil hectares; já o produtor rural Ricardo Bacha, em cuja fazenda foi morto o terena Oziel Gabriel, tem cerca de 6.300 hectares, dos quais 800 em litígio. Se é de concentração de terra na mão de poucos que se pretende falar, há muitos números ilustrativos que podem ser citados. Outro dado interessante vem de uma pesquisa da Embrapa, citada em artigo do engenheiro florestal Paulo Barreto, no site O Eco: há 58,6 milhões de hectares de pastos degradados pela pecuária, o equivalente a 53% da área total de terras indígenas. “A Embrapa tem demonstrado que já existem as tecnologias para aumentar a produtividade dos pastos degradados. Assim, ocupar terra indígena é, além de inconstitucional, prova de incompetência”, afirma Barreto. A Embrapa é um dos novos atores que deverão ser chamados para opinar sobre as demarcações, numa manobra para esvaziar a Funai e agradar a bancada ruralista.
O lugar de estranho indesejado,supostamente sem espaço no Brasil que busca o desenvolvimento, tem permitido todo o tipo de atrocidades contra indivíduos e também contra etnias inteiras ao longo da história. Seria muito importante que cada brasileiro reservasse meia hora ou menos do seu dia para ler pelo menos as primeiras 16 páginas do resumo do Relatório Figueiredo, um documento histórico que se acreditava perdido e que foi descoberto no final de 2012 por Marcelo Zelic, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, de São Paulo. No total, o procurador Jáder Figueiredo Correia dedicou 7 mil páginas para contar o que sua equipe viu e ouviu. A íntegra também está disponível na internet.
O relatório, datado de 1968, documentou o tratamento dado aos povos indígenas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Entre os crimes, cujos responsáveis foram nominados, mas jamais punidos, estão os “castigos” infligidos pelos funcionários aos indígenas, como crucificações e uma tortura conhecida como “tronco”, na qual a vítima tinha o tornozelo triturado. Crianças eram vendidas para abusadores, mulheres, estupradas e prostituídas. Duas aldeias de pataxós, na Bahia, foram dizimadas para atender aos interesses de políticos de expressão nacional da época.Uma nação indígena inteira foi extinta por fazendeiros, no Maranhão, sem que os funcionários sequer tentassem protegê-la. O procurador cita a possível inoculação do vírus da varíola em uma etnia de Itabuna, na Bahia, para que as terras fossem liberadas para “figurões do governo”, assim como o extermínio de um grupo de cintas-largas, em Mato Grosso, de várias formas: atirando dinamite de um avião e adicionando estricnina ao açúcar, além de caçá-los e matá-los com metralhadoras. O massacre ocorreu em 1963, ainda no período democrático, portanto, e os que ainda assim sobreviveram foram rasgados com o facão, “do púbis a cabeça”.
A lista é longa. É importante ressaltar que tudo isso não se passou na época de Pedro Álvares Cabral, nem mesmo no tempo dos bandeirantes, mas na década de 60 do século XX. Praticamente ontem, do ponto de vista histórico. Cabe enfatizar ainda que os crimes foram infligidos aos indígenas, num comportamento disseminado por todo o país, por representantes do Estado brasileiro. Menciono o relatório não só porque acredito que precisamos conhecê-lo, mas porque ele demonstra que tipo de olhar permite que atrocidades dessa ordem tenham se tornado uma política não oficial, mas exercida como se fosse – e não por um único psicopata, mas por dezenas de funcionários e suas esposas, com o apoio e às vezes a ordem da direção do órgão criado para proteger os povos tradicionais. Para estas pessoas, o corpo dos indígenas era território a ser violado, como violada foi a sua terra. Como aqueles sem lugar, os indígenas não eram reconhecidos como iguais, nem mesmo como humanos. Eram o que, então? O procurador responde: “Tudo como se o índio fosse um irracional, classificado muito abaixo dos animais de trabalho, aos quais se presta, no interesse da produção, certa assistência e farta alimentação”.
Para quem imagina que este capítulo é parte do passado, vale a pena lembrar que apenas nos últimos dez anos, nos governos Lula-Dilma, foram assassinados 560 indígenas. A Constituição precisa ser cumprida, as demarcações devem ser feitas, os fazendeiros que possuem títulos legais, distribuídos pelo governo no passado, têm direito a ser indenizados pelo Estado. Mas há um movimento maior, mais profundo, que é preciso empreender. Como “estrangeiro nativo”, uma impossibilidade, só é possível perpetuar a violência.É necessário fazer o gesto, também em nível individual, de reconhecer o indígena como parte, não como fora. Para isso é preciso primeiro desejar conhecer, o gesto que precede o reconhecimento. Só então o Brasil encontrará o Brasil.
Entre os exemplos mais explícitos está a tese de que não falam por si. Aos estrangeiros é negada a posse de uma voz, já que não podem ser reconhecidos como parte. Sempre que os indígenas saem das fronteiras, tanto as físicas quanto as simbólicas, impostas para que continuem fora, ainda que dentro, é reeditada a versão de que são “massas de manobra” das ONGs. Vale a pena olhar com mais atenção para essa versão narrativa, que está sempre presente, mas que em momentos de acirramento dos conflitos ganha força.
Desta vez, a entrada dos indígenas no noticiário se deu por dois episódios: a morte do terena Oziel Gabriel, durante uma operação da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul, e a paralisação das obras de Belo Monte, no Pará, pela ocupação do canteiro pelos mundurucus. O terena Oziel Gabriel, 35 anos, morreu com um tiro na barriga durante o cumprimento de uma ordem de reintegração de posse em favor do fazendeiro e ex-deputado pelo PSDB Ricardo Bacha, sobre uma terra reconhecida como sendo território indígena desde 1993. Pela lógica do discurso de que seriam manipulados pelas ONGs, Oziel e seu grupo, se pensassem e agissem segundo suas próprias convicções, não estariam reivindicando o direito assegurado constitucionalmente de viver na sua área original. Tampouco estariam ali porque a alternativa à luta pela terra seria virar mão de obra barata ou semiescrava nas fazendas da região, ou virar favelados nas periferias das cidades. Não. Os indígenas só seriam genuinamente indígenas se aceitassem pacífica e silenciosamente o gradual desaparecimento de seu povo, sem perturbar o país com seus insistentes pedidos para que a Constituição seja cumprida. Aí já há uma pista para o que alguns setores da sociedade brasileira entendem como identidade “verdadeira”: ser índio seria, quando não desaparecer, ao menos silenciar.
No caso dos mundurucus, questionou-se exaustivamente a legitimidade de sua presença no canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, por estarem “a 800 quilômetros de sua terra”. De novo, os indígenas estariam extrapolando fronteiras não escritas. Os mundurucus estavam ali porque suas terras poderão ser afetadas por outras 14 hidrelétricas, desta vez na Bacia do Tapajós, e pelo menos uma delas, São Luiz do Tapajós, deverá estar no leilão de energia previsto para o início de 2014. Se não conseguirem se fazer ouvir agora, eles sabem que acontecerá com eles o mesmo que acabou de acontecer com os povos do Xingu. Serão vítimas de um outro discurso muito em voga, o da obra consumada. A trajetória de Belo Monte mostrou que a estratégia é tocar a obra, mesmo sem o cumprimento das condicionantes socioambientais, mesmo sem a devida escuta dos indígenas, mesmo com os conhecidos atropelamentos do processo dentro e fora do governo, até que a usina esteja tão adiantada, já tenha consumido tanto dinheiro, que parar seja quase impossível.
Adiantaria os mundurucus gritarem sozinhos lá no Tapajós, para serem contemplados no seu direito constitucional, respaldado também por convenção da Organização Internacional do Trabalho, de serem ouvidos sobre uma obra que vai afetá-los? Não. Portanto, eles foram até Belo Monte se fazer ouvir. Mas, como são indígenas, alguns acreditam que não seriam capazes de tal estratégia política. É preciso resgatar, mais uma vez, o discurso da manipulação – ou da infiltração. Já que, para serem indígenas legítimos, os mundurucus teriam de apenas aceitar toda e qualquer obra – e, se fossem bons selvagens, talvez até agradecer aos chefes brancos por isso.
Quando os indígenas levantam a voz, a voz não seria sua. Seria de um outro, a quem emprestam o corpo. Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que o discurso dos indígenas como massa de manobra seja inocente. Ele serve a muitos interesses, inclusive o de tirar do foco os reais interesses sobre as terras indígenas de quem o difunde. Mas esse discurso não teria ressonância se não tivesse a adesão de uma parte significativa da população brasileira. E esta adesão se dá, me parece, por essa espécie de xenofobia invertida. Estes “estrangeiros nativos” ameaçariam um suposto progresso, já que seu conhecimento não é decodificado como um valor, mas como um “atraso”, sua enorme diversidade cultural e de visões de mundo não são interpretadas como riqueza e possibilidades, mas como inutilidades. Neste sentido, há uma frase bastante reveladora de como esse olhar – ou não olhar – contamina amplas parcelas da sociedade, inclusive no governo. Ao falar em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, em dezembro passado, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse que sua pasta atendia “da toga à tanga”. Entre os dois extremos, podemos ver em qual deles o ministro situa o ápice da civilização e também o seu oposto.
Há ainda uma dupla invocação do estrangeiro nesse discurso, já que a única coisa pior do que ser “massa de manobra” de ONGs nacionais seria ser das estrangeiras. Evocar a ameaça externa parece sempre funcionar, como naqueles SPAMs, que volta e meia reaparecem, de que “os gringos estão invadindo a Amazônia” – esta também, tão nossa que podemos destruí-la, tarefa a que temos nos dedicado com afinco. Ao denunciar uma suposta apropriação do corpo simbólico dos indígenas por outros, o que se revela, de fato, é a frustração porque esse corpo não se deixa expropriar e manipular pelas elites como antes. Porque apesar de todas as violências, há uma voz que ainda escapa – e que demanda o reconhecimento de seu corpo-terra, de seu pertencimento. Aquele que é visto como o de fora se torna um incômodo quando diz que é parte.
Vale a pena prestar atenção em quem amplifica o discurso dos indígenas como “massa de manobra”, para verificar que fazem exatamente o que acusam outros de fazer: afirmam o que os indígenas, todos eles, precisam e querem. Parece haver um consenso, inclusive, de que o verdadeiro desejo dos indígenas seria se tornar um trabalhador assalariado e urbano ou, pelo menos, o beneficiário de algum programa de transferência de renda do governo.
Nesta posição, eles não atrapalhariam ninguém – e menos ainda os produtores rurais. Este é o momento chave para a entrada de outro discurso recorrente: o de que os indígenas querem terra “demais”. Basta fazer as contas, como fez o jornalista Fabiano Maisonnave, na Folha de S. Paulo: com uma população de 28 mil indígenas em Mato Grosso do Sul, os terenas têm sete reservas, somando cerca de 20 mil hectares; já o produtor rural Ricardo Bacha, em cuja fazenda foi morto o terena Oziel Gabriel, tem cerca de 6.300 hectares, dos quais 800 em litígio. Se é de concentração de terra na mão de poucos que se pretende falar, há muitos números ilustrativos que podem ser citados. Outro dado interessante vem de uma pesquisa da Embrapa, citada em artigo do engenheiro florestal Paulo Barreto, no site O Eco: há 58,6 milhões de hectares de pastos degradados pela pecuária, o equivalente a 53% da área total de terras indígenas. “A Embrapa tem demonstrado que já existem as tecnologias para aumentar a produtividade dos pastos degradados. Assim, ocupar terra indígena é, além de inconstitucional, prova de incompetência”, afirma Barreto. A Embrapa é um dos novos atores que deverão ser chamados para opinar sobre as demarcações, numa manobra para esvaziar a Funai e agradar a bancada ruralista.
O lugar de estranho indesejado,supostamente sem espaço no Brasil que busca o desenvolvimento, tem permitido todo o tipo de atrocidades contra indivíduos e também contra etnias inteiras ao longo da história. Seria muito importante que cada brasileiro reservasse meia hora ou menos do seu dia para ler pelo menos as primeiras 16 páginas do resumo do Relatório Figueiredo, um documento histórico que se acreditava perdido e que foi descoberto no final de 2012 por Marcelo Zelic, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, de São Paulo. No total, o procurador Jáder Figueiredo Correia dedicou 7 mil páginas para contar o que sua equipe viu e ouviu. A íntegra também está disponível na internet.
O relatório, datado de 1968, documentou o tratamento dado aos povos indígenas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Entre os crimes, cujos responsáveis foram nominados, mas jamais punidos, estão os “castigos” infligidos pelos funcionários aos indígenas, como crucificações e uma tortura conhecida como “tronco”, na qual a vítima tinha o tornozelo triturado. Crianças eram vendidas para abusadores, mulheres, estupradas e prostituídas. Duas aldeias de pataxós, na Bahia, foram dizimadas para atender aos interesses de políticos de expressão nacional da época.Uma nação indígena inteira foi extinta por fazendeiros, no Maranhão, sem que os funcionários sequer tentassem protegê-la. O procurador cita a possível inoculação do vírus da varíola em uma etnia de Itabuna, na Bahia, para que as terras fossem liberadas para “figurões do governo”, assim como o extermínio de um grupo de cintas-largas, em Mato Grosso, de várias formas: atirando dinamite de um avião e adicionando estricnina ao açúcar, além de caçá-los e matá-los com metralhadoras. O massacre ocorreu em 1963, ainda no período democrático, portanto, e os que ainda assim sobreviveram foram rasgados com o facão, “do púbis a cabeça”.
A lista é longa. É importante ressaltar que tudo isso não se passou na época de Pedro Álvares Cabral, nem mesmo no tempo dos bandeirantes, mas na década de 60 do século XX. Praticamente ontem, do ponto de vista histórico. Cabe enfatizar ainda que os crimes foram infligidos aos indígenas, num comportamento disseminado por todo o país, por representantes do Estado brasileiro. Menciono o relatório não só porque acredito que precisamos conhecê-lo, mas porque ele demonstra que tipo de olhar permite que atrocidades dessa ordem tenham se tornado uma política não oficial, mas exercida como se fosse – e não por um único psicopata, mas por dezenas de funcionários e suas esposas, com o apoio e às vezes a ordem da direção do órgão criado para proteger os povos tradicionais. Para estas pessoas, o corpo dos indígenas era território a ser violado, como violada foi a sua terra. Como aqueles sem lugar, os indígenas não eram reconhecidos como iguais, nem mesmo como humanos. Eram o que, então? O procurador responde: “Tudo como se o índio fosse um irracional, classificado muito abaixo dos animais de trabalho, aos quais se presta, no interesse da produção, certa assistência e farta alimentação”.
Para quem imagina que este capítulo é parte do passado, vale a pena lembrar que apenas nos últimos dez anos, nos governos Lula-Dilma, foram assassinados 560 indígenas. A Constituição precisa ser cumprida, as demarcações devem ser feitas, os fazendeiros que possuem títulos legais, distribuídos pelo governo no passado, têm direito a ser indenizados pelo Estado. Mas há um movimento maior, mais profundo, que é preciso empreender. Como “estrangeiro nativo”, uma impossibilidade, só é possível perpetuar a violência.É necessário fazer o gesto, também em nível individual, de reconhecer o indígena como parte, não como fora. Para isso é preciso primeiro desejar conhecer, o gesto que precede o reconhecimento. Só então o Brasil encontrará o Brasil.
(Eliane Brum escreve às
segundas-feiras)
terça-feira, 23 de julho de 2013
segunda-feira, 22 de julho de 2013
domingo, 21 de julho de 2013
sábado, 20 de julho de 2013
sexta-feira, 31 de maio de 2013
JUDEUS E A ESCRAVIDÃO NEGRA
A ESCRAVIDÃO NEGRA
MARC
LEE RAPHAEL
“JUDEUS
TAMBÉM TIVERAM UMA PARTICIPAÇÃO ATIVA NO COMÉRCIO DE ESCRAVOS COLONIAIS
HOLANDESAS. NA VERDADE, O REGULAMENTO DO RECIFE E CONGREGAÇÕES MAURICIAS (1648)
INCLUÍAM UM IMPOSTO (TAXA JUDIA) DE CINCO SOLDOS POR CADA ESCRAVO NEGRO QUE UM
JUDEU BRASILEIRO COMPRASSE DA COMPANHIA DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS . LEILÕES DE
ESCRAVOS ERAM ADIADOS SE ELES CAÍAM NUM FERIADO JUDAICO. EM CURAÇAO, NO SÉCULO
XVII, BEM COMO NAS COLÔNIAS BRITÂNICAS DE BARBADOS E NA JAMAICA NO SÉCULO
XVIII, MERCADORES JUDEUS DESEMPENHARAM UM PAPEL IMPORTANTE NO COMÉRCIO DE
ESCRAVOS. NA VERDADE, EM TODAS AS COLÔNIAS AMERICANAS, SEJA FRANCESA
(MARTINICA), BRITÂNICA OU HOLANDESA, MERCADORES JUDEUS FREQÜENTEMENTE
DOMINAVAM”.
“ISTO
NÃO FOI MENOS VERDADEIRO NO CONTINENTE NORTE-AMERICANO, ONDE DURANTE O SÉCULO
DEZOITO, JUDEUS PARTICIPARAM DO “COMÉRCIO TRIANGULAR” QUE TRAZIA ESCRAVOS DA
ÁFRICA PARA AS ÍNDIAS OCIDENTAIS (AMÉRICAS) E LÁ OS TROCAVA POR MELAÇO, QUE POR
SUA VEZ FOI LEVADO PARA A NOVA INGLATERRA E CONVERTIDO EM RUM PARA VENDER NA
ÁFRICA. ISAAC DA COSTA DE CHARLESTON, NA DÉCADA DE 1750, DAVID FRANKS, DE
FILADÉLFIA, EM 1760, E LOPEZ AARON DE NEWPORT NO FINAL DOS ANOS 1760 E NO
INÍCIO DOS ANOS 1770. OS JUDEUS DOMINAVAM O COMÉRCIO DE ESCRAVOS NO CONTINENTE
AMERICANO”.
FONTE:
Jews and Judaism in the United States a Documentary History – Tradução Livre:
“Os judeus e o Judaísmo nos Estados Unidos uma História Documentário” (New
York: Behrman House, Inc., Pub, 1983), p. 14.
Dr.
Raphael Lee é o editor da história judaica americana, a revista do American Jewish
Historical Society na Universidade de Brandeis, em Massachusetts.
IRA
ROSENWAIKE
“EM
CHARLESTON, RICHMOND E SAVANNAH A GRANDE MAIORIA (MAIS DE TRÊS QUARTOS) DAS
FAMÍLIAS JUDIAS TINHAM UM OU MAIS ESCRAVOS, EM BALTIMORE, APENAS UMA EM CADA
TRÊS CASAS ERA ESCRAVISTA; EM NOVA YORK, UMA EM CADA DEZOITO… ENTRE AS FAMÍLIAS
DONAS DE ESCRAVOS, O NÚMERO MÉDIO DE ESCRAVOS VARIAVA DE CINCO, EM SAVANNAH, A
UM EM NOVA YORK”.
FONTE:
“A população judaica em 1820,” em Abraham J. Karp, ed, a experiência judaica na
América: Estudos selecionados a partir de Publicações do American Jewish
Historical Society (Waltham, Massachusetts, 1969, 3 volumes), volume 2, p. 2,
17, 19.
CECIL
ROTH
“OS
JUDEUS DO SAVANNE JODEN [SURINAME] TAMBÉM FORAM OS PRIMEIROS NA SUPRESSÃO DAS
SUCESSIVAS REVOLTAS NEGRAS, DE 1690-1722; ESTAS, DE FATO, FORAM EM GRANDE PARTE
DIRIGIDAS CONTRA ELES, COMO SENDO OS MAIORES SENHORES DE ESCRAVOS DA REGIÃO”.
História dos Marranos (Philadelphia: Jewish Publication
Society of America, 1932), p. 292.
JACOB
RADER MARCUS
“DURANTE
TODO O SÉCULO XVIII, ATÉ O INÍCIO DO SÉCULO XIX, OS JUDEUS NO NORTE POSSUÍAM
SERVOS NEGROS; NO SUL, AS POUCAS PLANTAÇÕES DE PROPRIEDADE DE JUDEUS, ERAM
CULTIVADAS COM TRABALHO ESCRAVO. EM 1820, MAIS DE 75% DE TODAS AS FAMÍLIAS
JUDIAS EM CHARLESTON , RICHMOND E SAVANNAH POSSUÍAM ESCRAVOS, EMPREGADOS COMO
EMPREGADOS DOMÉSTICOS, QUASE 40% DE TODAS AS FAMÍLIAS JUDIAS NOS ESTADOS UNIDOS
POSSUÍAM UM ESCRAVO OU MAIS. NÃO HOUVE PROTESTOS CONTRA A ESCRAVIDÃO, COMO TAL
PELOS JUDEUS NO SUL, ONDE ESTAVAM SEMPRE EM DESVANTAGEM, PELO MENOS 100-1… MAS
MUITO POUCOS JUDEUS, EM QUALQUER LUGAR NOS ESTADOS UNIDOS, PROTESTARAM CONTRA A
ESCRAVIDÃO POR RAZÕES MORAIS”.
Estados
Unidos judeus, 1776-1985 (Detroit: Wayne State University Press, 1989),
p. 586.
BIBLIOGRAFIA: http://hebreuisraelita.wordpress.com/category/judeus-2/
Observação: consulta nesta data, em 31/05/2013 às 11:33 local.
ESCRAVIDÃO NEGRA NO BRASIL
Escravidão negra no Brasil teve apoio da igreja católica
30/05/2013
30/05/2013
Há mais de 500 anos o Brasil foi invadido pelos colonizadores europeus. O objetivo foi o enriquecimento da Europa. Na realização deste objetivo, previa-se muito trabalho pesado e a solução encontrada pelos europeus foi à oficialização da escravidão no país como política econômica. As consequências desta política contaminaram negativamente as relações raciais e sociais em todo Brasil e até hoje estamos colhendo seus malefícios. Por exemplo: a Unicamp fez uma pesquisa em 1988, no centenário de abolição da escravidão, com 100 engenheiros negros e 100 engenheiros brancos empregados. O resultado: os engenheiros brancos ganham em média 28% a mais do que os engenheiros negros!
Através da bula Dum Diversas, de 16 de junho de 1452, o papa Nicolau V diria ao rei de Portugal, Afonso V: ...nós lhe concedemos, por estes presentes documentos, com nossa Autoridade Apostólica, plena e livre permissão de invadir; buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo, onde quer que estejam, como também seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades... e reduzir suas pessoas à perpétua escravidão, e apropriar e converter em seu uso e proveito e de seus sucessores, os reis de Portugal em perpétuo, os supramencionados reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades, possessões e bens semelhantes... Em 8 de janeiro de 1554 estes poderes foram estendidos aos reis da Espanha.
Apoiados nesse documento, os reis de Portugal e Espanha promoveram uma devastação do continente africano, matando e escravizando milhões de habitantes. A África era o único continente do mundo que dominava a tecnologia do ferro e com esta invasão e massacre promovido pelos povos europeus, o continente africano ficou com as mãos e os pés amarrados e dessa forma permanece até hoje.
O projeto colonial português se afirmava desenvolvendo duas formas de intervenção drásticas para a sobrevivência dos povos indígenas: usurpação de suas terras e exploração da sua força de trabalho.Na realidade, os primeiros escravos do Brasil foram os índios, também chamados, na documentação oficial, de "negros da terra" ou "gentio da terra".
O poder colonial usou a igreja para impor seus interesses escravistas. Cada ser humano, até hoje, tem uma postura política e o poder faz uso desta postura conforme seus interesses.
De 1500 a 1842, a intenção da igreja de Roma era a de promover a fé cristã sob a ótica européia colonizadora. Os valores da cultura negra eram menosprezados pela cultura branca dominante.
O lugar ocupado pelo negro era o de escravo e a escravidão roubava dele o direito de constituir família organizada, de vivenciar suas tradições culturais, de resgatar suas raízes. O colonizador anunciava tudo isso como sendo a Boa Nova, mas, sob a ótica do povo negro escravo e oprimido, significava a extinção de seus valores culturais e religiosos.
A afirmação de que os negros foram providencialmente abençoados por Deus através da escravidão, aparece no sermão XXVII, de Antônio Vieira, onde ele diz, é particular providência de Deus que vivais de presente escravos e cativos para que por meio do cativeiro temporal consigais a liberdade ou alforria eterna.
A mensagem católica da época colonial enfatizava que a África era um continente demoníaco, e todos os seus habitantes já estavam condenados ao fogo eterno, devido à sua origem ligada ao pecado e à maldição de Cão (Cam).
Os religiosos da época legitimaram o processo de escravização dos negros, sobre a prerrogativa de que a única chance de um africano ter salvação da sua alma pré-condenada ao inferno seria sendo trazido para a América na condição de escravos, onde teria a oportunidade de contatar a cristandade , ouvir a pregação da mensagem cristã proferida pelos portugueses e espanhóis católicos, e receber o santo batismo.
A igreja católica estabeleceu um forte vínculo com o Império ratificando essa proposta e jamais se preocupou com uma ação libertadora, e sim com os privilégios obtidos a partir dessa parceria. Assim, a ICAR apoiava o Império nas lutas armadas contra os escravos negros. Colocou-se ao lado dos opressores diante da destruição dos Quilombos dos Palmares e do assassinato de Zumbi, além de ser conivente com o assassinato de Manoel Congo, líderes do povo negro que lutaram contra a escravidão e libertação de seu povo. Portanto, o Império concedia à Igreja poder e status para que ela também pudesse influenciar politicamente nos rumos do país.
A história do Brasil está assim misturada à história da escravidão. Podemos dizer que nos seus mais de quinhentos anos de existência, o Brasil tem funcionado sem escravos durante apenas 150 anos. Nos anos restantes, o país se fez à custa do suor e do sangue dos negros que chegavam às praias brasileiras, emergindo da travessia do Atlântico nos porões dos navios negreiros, onde sobreviviam apenas os mais fortes.
BIBLIOGRAFIA: __________. JORNAL HUMANITAS, ANO I - Nr 4, Recife-PE, novembro 2012 "O jornal dos livres pensadores".
quinta-feira, 30 de maio de 2013
MILAGRES DE YHWH
Os hebreus são negros
30/05/2013
30/05/2013
Quando apareceu ao levita Moisés YHWH Elohim mostrou-lhe poderes para que o povo acreditasse. "Perguntou-lhe YHWH (Jeová), que é isto que tens nas mãos e Moisés disse, um bordão. Então Yah lhe disse: lança-o na terra, ele o lançou e o bordão virou uma serpente em seguida YHWH disse a Moisés para estender a mão e pegar a serpente e ela se tornou em bordão(Shmot/Exodo 4: 2 e 3)". Após este sinal, "Jeová disse a Moisés para por a mão no peito e a quando retirou a mão de Moisés estava leprosa branca como a neve. Disse ainda a Moisés torna a por a mão no peito e sua mão se havia tornado como o restante de sua carne (Shmot/Ex. 4: 6 a 8)". E assim Jeová mostrou o milagre de tornar um homem negro em branco. E continuou: "Se eles não crerem em ti, nem atenderem à evidência do primeiro sinal, talvez crerão na evidência do segundo (Ex. 4: 8)".
E YHWH tornou Miriã leprosa: "Falaram Miriã e Arão contra Moisés, por causa da mulher cuxita que tomara; pois tinha tomado a mulher cuxita (Nm 12: 1). Cuxita significa negra. Os descendentes de Cham foram Cuxe, Mitzraim, Pute e Kenaan. Cham significa preto, negro, queimado. Então a ira de YHWH se acendeu contra eles, a nuvem afastou-se de sobre a tenda; e eis que Miriã estava leprosa, branca como a neve; e olhou Arão para Miriã e eis que estava leprosa (Ex. 12: 9 a 10)". Agora pense, se Miriã fosse branca Yah castigaria ela tornando-a branca? Não seria um sinal milagroso.
Paz
quarta-feira, 29 de maio de 2013
APARÊNCIA FÍSICA DO ANTIGO YISRAEL
Aparência física do antigo Yisrael
29/05/2013
29/05/2013
"Naqueles dias, sendo Moisés já homem, saiu a seus irmãos e viu os seus labores penosos; e viu que certo egípcio espancava um hebreu, um do seu povo. Olhou de um lado e de outro lado, e vendo que não havia ninguém, matou o egípcio, e o escondeu na areia" (Ex. 2: 11 a 12). "O sacerdote de Midiã tinha sete filhas, as quais vieram a tirar água e encheram os bebedouros para dar de beber ao rebanho de seu pai. Então, vieram os pastores e as enxotaram dali; Moisés, porém, se levantou, e as defendeu,e deu de beber ao rebanho. Tendo elas voltado a Reuel, seu pai, este lhes perguntou: por que viestes, hoje, mais cedo? Responderam elas: Um egípcio nos livrou das mãos dos pastores, e ainda nos tirou água, e deu de beber ao rebanho" (Ex. 2: 16 a 19). José subiu para sepultar o seu pai; e subiram com ele todos os oficiais de Faraó, os principais da sua casa e todos os principais da terra do Egito, como também toda a casa de José , e seus irmãos, e a casa de seu pai; somente deixaram na terra de Gósen as crianças, e os rebanhos, e o gado. E subiram também com ele tantos carros como cavaleiros, e o cortejo foi grandíssimo.Chegando eles, pois, à eira de Atade , que está além do Jordão, fizeram ali grande e intensa lamentação, e José pranteou seu pai durante sete dias. Tendo visto os moradores da terra, os cananeus, o luto na eira de Atade, disseram: Grande pranto é este dos egípcios. E por isso se chamou aquele lugar de Abel-Mitzraim, que está além do Jordão" (Gên. 50: 7 a 11). Observe caros leitores, os hebreus foram confundidos com os egípcios porque eram negros todos. O escritor Inglês Gerald Massey autor do livro "O EGITO A LUZ DO MUNDO" afirmou que os antigos egípcios eram negros.
Antes de comentarmos outros temas, é necessário compreendermos a natureza africana do livro "A Escritura dos Hebreus" e que todos descubram quem são os verdadeiros hebreus e como eles vivem hoje, os filhos de Jacó.
Aceitamos comentários desde que tenham fundamento e seja fruto de pesquisa, estudo exceto àqueles comentários indecorosos, indesejáveis os quais não edificam e afastam o homem do Pai celestial. Temos muito que aprender. Meu desejo é que todos sejam salvos.
Paz seja convosco
Assinar:
Comentários (Atom)